Marcello José Abbud explica que o maior obstáculo para uma gestão de resíduos eficiente no Brasil não é técnico nem financeiro, mas estrutural: a dependência quase exclusiva do poder público para resolver um problema que exige agilidade, inovação e capital privado. Enquanto municípios enfrentam orçamentos apertados e obrigações legais crescentes, o setor privado acumula ferramentas, tecnologia e interesse concreto em ocupar esse espaço.
A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), em vigor desde 2010, estabeleceu metas ambiciosas para o país, incluindo a extinção dos lixões e a universalização da coleta seletiva. Mais de uma década depois, a realidade ainda está distante dessas metas em boa parte dos municípios brasileiros, especialmente os de pequeno porte. É precisamente nesse vácuo que o setor privado tem encontrado terreno fértil para atuar com soluções práticas e escaláveis.
A pergunta que gestores públicos e empresários precisam responder juntos é: como construir uma parceria que funcione de verdade? Continue lendo para entender como essa transição pode acontecer e quais são os caminhos mais promissores identificados por quem está no centro desse debate.
O que o setor privado tem que o poder público, sozinho, não consegue entregar?
Segundo Marcello José Abbud, a resposta está na combinação de velocidade e especialização. Empresas privadas operam com ciclos de decisão mais curtos, acesso a capital de risco e liberdade para testar e errar, condições que a gestão pública raramente pode se dar ao luxo de assumir.
No campo dos resíduos sólidos urbanos, isso significa a possibilidade de implantar tecnologias de tratamento, triagem automatizada e aproveitamento energético muito antes que os processos licitatórios tradicionais se concluam. Há também a questão da escala. Empresas que atuam em múltiplos municípios desenvolvem competência técnica acumulada, algo que uma prefeitura isolada dificilmente consegue construir com equipe própria.

Como o modelo de parceria público-privada pode funcionar no setor de resíduos?
Como observa Marcello José Abbud, o modelo de Parceria Público-Privada (PPP) ainda é subutilizado no setor de resíduos no Brasil, em parte por desconhecimento técnico dos gestores municipais e em parte pela percepção equivocada de que esse tipo de contrato beneficia apenas a iniciativa privada.
Na prática, quando bem desenhadas, essas parcerias distribuem riscos de forma equilibrada e garantem ao município metas de desempenho que os contratos de prestação de serviços comuns raramente incluem. O Novo Marco Legal do Saneamento (Lei 14.026/2020) ampliou as possibilidades jurídicas para esse tipo de arranjo, incluindo os resíduos sólidos na lógica de universalização dos serviços.
Inovação tecnológica como fator de competitividade e sustentabilidade
O setor privado também lidera a introdução de tecnologias de tratamento que estão transformando a cadeia de resíduos no Brasil. Como destaca Marcello José Abbud, soluções que vão da triagem por inteligência artificial ao tratamento termomecânico de rejeitos já estão disponíveis e economicamente viáveis para municípios de médio porte, desde que os contratos estejam estruturados para amortizar o investimento ao longo do tempo.
A sustentabilidade, nesse cenário, deixa de ser apenas um compromisso ambiental e passa a ser um diferencial competitivo. Empresas que conseguem transformar resíduos em insumos, energia ou créditos de carbono agregam valor ao contrato municipal e reduzem a dependência de aterros, cuja capacidade é finita e cujo custo de operação cresce ano a ano. De acordo com Marcello José Abbud, essa lógica de valorização dos resíduos é o ponto central de uma gestão verdadeiramente sustentável.
O horizonte que se abre para municípios e empresas comprometidos com a mudança
Marcello José Abbud resume que a transição para uma gestão de resíduos sustentável no Brasil não depende de uma solução única ou de um único agente. Ela exige a construção de um ecossistema em que poder público, setor privado, sociedade civil e academia atuem com papéis definidos e complementares.
Os próximos anos revelarão quais municípios e quais empresas tiveram a capacidade de antecipar essa dinâmica e se posicionar estrategicamente. O setor privado, quando orientado por compromissos reais com a sustentabilidade e não apenas pelo retorno financeiro de curto prazo, tem a capacidade de acelerar essa transição de forma significativa.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

