Felipe Rassi elucida que, em carteiras cedidas, a amostragem ajuda a identificar vícios recorrentes sem depender de revisão integral de todos os contratos. Nesse sentido, o objetivo não é “adivinhar” a qualidade do portfólio, e sim testar consistência em pontos críticos, buscando padrões de falha que tendem a se repetir em escala e impactar diretamente a recuperação de ativos.
Por que amostragem faz sentido em portfólios de NPLs
Em carteiras com grande volume, revisar 100% dos ativos com a mesma profundidade costuma ser inviável. Por outro lado, seguir sem qualquer teste aumenta o risco de descobrir falhas apenas na cobrança, quando o custo de correção é maior e o ruído já está instalado. Conforme salienta Felipe Rassi, a amostragem funciona como instrumento de governança: ela mede integridade e aponta onde o saneamento é necessário antes de negociar em série.

Ademais, a amostragem ajuda a separar problemas pontuais de problemas estruturais. Um documento faltante em um caso pode ser exceção; o mesmo documento faltante em grande parte da amostra indica padrão. Consequentemente, o portfólio pode ser segmentado com base em risco real, evitando que exceções contaminem o fluxo de cobrança.
Definição de critérios e recortes para selecionar a amostra
A amostra precisa ser definida com critério, evitando seleção aleatória sem objetivo. Felipe Rassi explicita que recortes por origem do crédito, período de contratação, tipo de produto e presença de garantias ajudam a capturar diferenças de documentação e de cálculo. Em paralelo, selecionar casos por faixa de valor e tempo de atraso pode revelar padrões distintos de contestação e saneamento, principalmente quando a carteira reúne contratos com históricos muito diferentes.
Outro cuidado é garantir representatividade. Mostrar apenas ativos “mais fáceis” distorce o diagnóstico, enquanto amostrar apenas ativos “mais difíceis” pode exagerar o risco. Portanto, definir percentuais por grupo e combinar recortes tende a produzir uma visão mais útil para a decisão. Adicionalmente, vale incluir, na amostra, uma parcela de créditos com renegociações e uma parcela sem renegociações, pois isso costuma alterar a memória de cálculo e o conjunto de aditivos, gerando fontes diferentes de vício.
O que testar na amostra para achar vícios que travam a cobrança
O núcleo do teste costuma passar por quatro blocos. Primeiro, identificação e cadastro: número de contrato, CPF/CNPJ e chaves internas precisam ser consistentes entre planilha e documentos. Segundo, prova do crédito: contrato e aditivos, quando existirem, devem sustentar condições pactuadas e eventuais alterações. Terceiro, memória de cálculo: saldo, data-base, parâmetros e registros de pagamentos devem permitir conferência. Quarto, titularidade: em cessões sucessivas, instrumentos e anexos precisam permitir demonstrar legitimidade de cobrança.
Para Felipe Rassi, a amostragem também deve observar divergências repetidas, como saldos sem data-base, ausência de abatimentos, duplicidade de registros e documentos com versões conflitantes. Consequentemente, o diagnóstico deixa de ser “tem ou não tem documento” e passa a ser “qual é o padrão de falha que mais compromete a execução”. Além disso, o teste pode registrar a frequência de cada vício na amostra, porque um problema raro pede tratamento pontual, enquanto um problema frequente exige saneamento em lote e revisão de critérios de elegibilidade.
Como transformar achados em plano de saneamento e segmentação
Depois do teste, o passo seguinte é transformar achados em ação. Conforme detalha Felipe Rassi, vícios recorrentes devem gerar um plano de saneamento por prioridade, com checklists e rotinas de correção em lote. Em paralelo, ativos com documentação íntegra podem seguir para cobrança, enquanto ativos com lacunas relevantes podem ser separados para regularização ou reavaliação de viabilidade.
Por outro lado, o plano precisa indicar o “ponto de corte” do que é saneável e do que compromete a recuperabilidade. Portanto, além de corrigir campos e reunir anexos, é útil definir quais vícios impedem negociação imediata, quais vícios exigem apenas ajuste de base e quais vícios precisam de revisão jurídica mais cuidadosa. Quando aplicada com critérios objetivos, ela reduz surpresas, melhora previsibilidade e diminui ruídos na cobrança de carteiras cedidas, pois antecipa problemas que, de outro modo, apareceriam apenas no meio da recuperação de ativos.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

