Qual o impacto da nova abordagem sobre riscos psicossociais no clima organizacional?  

Diego Velázquez Por Diego Velázquez
Éverton da Costa Sagiorato

O médico Éverton da Costa Sagiorato aponta que, durante muito tempo, o mapa de riscos de uma empresa foi um documento sobre ruído, calor, poeira e postura. Quem falava de sobrecarga, medo da chefia ou ansiedade estava tratando de clima organizacional, assunto delegado ao setor de pessoas. A atualização da NR1 desfez essa fronteira: os riscos psicossociais passaram a ocupar o mesmo inventário técnico em que já estavam o agente químico e o fator ergonômico. 

Mudar de endereço tem consequência prática. Risco que entra no inventário precisa ser identificado, avaliado, hierarquizado e enfrentado em plano de ação com prazo e responsável definidos. Boa intenção não conta como controle. O que se cobra é evidência de que a empresa olhou para aquele risco, mediu o que era possível medir e decidiu algo a respeito dele.

A conversa deixa de ser sobre bem-estar e passa a ser sobre gerenciamento de riscos. A pergunta não é se a organização cuida das pessoas, e sim se ela sabe em que ponto do próprio funcionamento o adoecimento está sendo produzido.

O que a NR1 passou a exigir sobre riscos psicossociais?

A NR1 é a norma que estabelece as disposições gerais e o gerenciamento de riscos ocupacionais. Dentro dela, o PGR funciona como instrumento: reúne o inventário de riscos, que descreve o que existe, e o plano de ação, que descreve o que será feito. A atualização não criou um anexo separado para saúde mental. Ela inseriu o risco psicossocial na engrenagem que já existia, o que significa que ele precisa aparecer no mesmo documento, obedecendo à mesma lógica de fonte geradora, grupo exposto e medida de controle.

Na prática, isso exige descrever de onde o risco nasce dentro da organização do trabalho, quem está exposto por função ou por setor, e o que a empresa fará a respeito. Exige também revisão quando algo muda: reestruturação, nova meta, alteração de escala, afastamento relevante ou denúncia de assédio são gatilhos de reavaliação, não detalhes administrativos.

Por que campanha de bem-estar não reduz risco psicossocial?

Uma operação de atendimento telefônico com meta de tempo por chamada, pausa curta e supervisor cobrando resultado em tempo real pode oferecer palestra de respiração, aplicativo de meditação e ginástica laboral. Nada disso altera o tempo por chamada, a pausa ou a cobrança. O trabalhador recebe ferramenta para tolerar melhor a exposição e volta, no dia seguinte, ao mesmo desenho de trabalho. O indicador de estresse cede por algumas semanas e depois retorna ao ponto de origem.

O risco psicossocial não vive no campo do comportamento individual. Ele vive no desenho da tarefa: volume de demanda contra margem real de decisão, previsibilidade da escala, clareza do que se espera de cada função, qualidade da relação com a liderança, tolerância a comportamentos abusivos. Tratar a reação do trabalhador e deixar intacta a exposição que a produziu é o erro que Éverton da Costa Sagiorato nota com mais frequência.

Éverton da Costa Sagiorato
Éverton da Costa Sagiorato

Como medir risco psicossocial sem cair no achismo?

Medir organização do trabalho parece subjetivo, e é nesse ponto que a maioria dos programas trava. Existem instrumentos coletivos consolidados na literatura de saúde ocupacional, construídos sobre modelos como demanda e controle ou desequilíbrio entre esforço e recompensa, aplicáveis por setor e de forma anônima. E existe algo que quase toda empresa já tem guardado sem usar: absenteísmo por área, rotatividade, volume de horas extras, trocas de escala de última hora, registros no canal de denúncia.

Como avaliar riscos psicossociais no PGR? 

A avaliação cruza um instrumento coletivo, questionário validado ou entrevista estruturada por setor, com os indicadores que a empresa já registra, e conclui apontando função, setor e grau de exposição. O resultado descreve postos de trabalho, nunca pessoas identificadas.

Essa distinção entre posto e pessoa é o que impede o processo de virar triagem psiquiátrica interna. O objetivo não é descobrir quem está doente, é descobrir onde o trabalho está produzindo exposição. A unidade de análise, como destaca o médico Éverton da Costa Sagiorato, é o setor: informação clínica individual pertence ao sigilo do atendimento e não tem lugar em inventário de riscos.

O que muda no plano de ação?

Plano de ação para risco psicossocial não se escreve com verbo de intenção. Ele descreve alteração concreta: redimensionar equipe de um setor com sobrecarga crônica, revisar meta que só se cumpre com hora extra, dar previsibilidade à escala, garantir que a pausa aconteça, capacitar liderança em gestão de conflito, apurar denúncia de assédio com prazo e desfecho registrado. Apoio psicológico entra como cuidado necessário, e não como medida de controle, porque não mexe na fonte da exposição.

Há ainda o efeito sobre a vigilância da saúde. Quando o inventário aponta sobrecarga em uma área e os afastamentos por transtorno mental se concentram nessa mesma área, a coincidência deixa de ser invisível: ela reaparece na avaliação clínica, na discussão de nexo e, eventualmente, em perícia. Éverton da Costa Sagiorato avalia que a coerência entre o PGR e o programa de controle médico é o que sustenta a empresa nesse momento.

O risco que nenhum equipamento de medição aponta

Por décadas, risco ocupacional foi aquilo que um aparelho conseguia registrar: decibel, partícula por milhão, lux, quilo levantado. O que não tinha unidade de medida ficava fora do documento e, por consequência, fora da gestão. A entrada do risco psicossocial na NR1 encerra esse recorte e admite algo incômodo: a maneira de organizar o trabalho também é uma forma de exposição.

A empresa que trata isso como obrigação de papel vai produzir um inventário elegante e manter o problema intacto. A que trata como diagnóstico vai encontrar, no próprio organograma, decisões que saem caras em adoecimento. O ganho menos comentado da mudança, salienta Éverton da Costa Sagiorato, é obrigar a organização a olhar para aquilo que ela mesma construiu.

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