Documentar um acordo: fator que evita reinterpretação posterior

Sergei Valenko Por Sergei Valenko
Haroldo Augusto Filho

Boa parte dos desentendimentos que reabrem um acordo já fechado não nasce de má-fé. Nasce de duas versões diferentes de memória sobre o que exatamente ficou combinado. Cada lado sai da reunião com uma impressão levemente distinta do que foi dito, e meses depois essa diferença aparece como se fosse desonestidade, quando, na verdade, é apenas registro insuficiente.

Haroldo Augusto Filho, executivo com atuação em negociação empresarial e estruturação de soluções corporativas, trata a documentação de um acordo como parte da negociação, não como formalidade posterior a ela. Abaixo estão as perguntas mais recorrentes sobre como registrar um entendimento de forma que ele resista ao tempo.

Por que confiar na memória ou em e-mails soltos não é suficiente?

Porque a memória é reconstrutiva, não é uma gravação fiel do que aconteceu. Cada pessoa tende a lembrar o que foi dito de um jeito que confirma sua própria posição, sem perceber que está fazendo isso. E-mails trocados ao longo da negociação registram fragmentos, mas raramente consolidam o que foi finalmente decidido depois de idas e vindas, principalmente quando a proposta mudou várias vezes até chegar à versão final.

Haroldo Augusto Filho frisa que, nessas situações, o resultado é previsível: quando surge uma dúvida sobre um ponto específico meses depois, cada lado revisita sua própria lembrança e chega a uma versão diferente, honestamente convencido de que está certo. Nenhuma das partes precisa estar mentindo para que o desentendimento aconteça, e é justamente essa ausência de má-fé que torna o problema mais difícil de resolver depois, sem um registro para consultar.

O que exatamente precisa ser registrado?

Não é preciso transformar cada reunião num contrato. O essencial é registrar três coisas: o que foi efetivamente decidido, o que ficou em aberto para discussão futura e qual critério resolve os pontos ainda ambíguos caso surja divergência depois. Decisões e pontos abertos costumam ser confundidos quando o registro é feito de memória dias depois da reunião, em vez de logo ao final dela. Numa negociação de fornecimento, por exemplo, é comum sair da mesa com a impressão de que o preço está fechado, quando, na verdade, só o volume mínimo havia sido acertado, e o preço continuava sujeito a ajuste.

Haroldo Augusto Filho
Haroldo Augusto Filho

Haroldo Augusto Filho avalia, dentro desse ínterim, que separar claramente o que é decisão do que é ainda hipótese evita boa parte das discussões futuras sobre o que a empresa “tinha entendido” que valia. Um resumo de meia página, validado por escrito pelas duas partes ainda no mesmo dia, previne mais desentendimento do que um documento longo redigido semanas depois, quando os detalhes já começaram a se misturar.

Quando registrar: durante a reunião ou logo depois dela?

O ideal é fazer as duas coisas. Anotações durante a conversa capturam a linguagem exata usada em pontos sensíveis, porque pequenas escolhas de palavra costumam carregar significado que se perde na paráfrase. Um resumo estruturado logo depois, ainda no mesmo dia, organiza essas anotações antes que a memória comece a preencher lacunas com suposições.

Haroldo Augusto Filho considera que o intervalo entre o fim da reunião e o registro formal é o momento de maior risco de distorção: quanto mais tempo passa, mais cada lado tende a lembrar a versão que mais lhe favorece, sem perceber a própria seletividade.

O que fazer quando as partes lembram de coisas diferentes?

Haroldo Augusto Filho comenta que, nesses casos, o documento validado nos dias seguintes à reunião pesa mais do que a lembrança de qualquer um dos lados, justamente porque foi produzido perto do momento da decisão, com as duas partes ainda concordando com os termos. Divergências que aparecem depois costumam se resolver rápido quando existe esse registro para consultar, e se arrastam quando a única fonte disponível é a memória de cada parte.

Entendemos, então, que documentar bem um acordo não substitui a confiança entre as partes, mas retira da confiança um peso que ela não deveria carregar sozinha: o de sustentar, meses depois, exatamente o que foi combinado num único encontro.

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