A especiaria das Índias que virou fonte de renda no Baixo Sul da Bahia

Sergei Valenko Por Sergei Valenko
Alfredo Moreira Filho

Poucos produtos contam tão bem a história das trocas entre continentes quanto o cravo-da-índia. Na interpretação de Alfredo Moreira Filho, empresário cuja trajetória começou na roça em Igrapiúna, no Baixo Sul da Bahia, a presença dessa especiaria na região mostra como culturas trazidas de longe podem se transformar em parte da identidade econômica de um território.

Pouca gente sabe, mas quase todo o cravo produzido no Brasil vem de um pequeno grupo de municípios baianos. A cultura sustenta famílias, abastece o mercado interno e chega a outros países, mas enfrenta desafios que exigem pesquisa e organização. Entenda, nos tópicos a seguir, a trajetória dessa especiaria e seu papel na economia local.

Das ilhas Molucas ao litoral baiano

O cravo-da-índia é originário das ilhas Molucas, no arquipélago que hoje pertence à Indonésia. Durante séculos, foi uma das especiarias mais valiosas do comércio mundial, disputada por portugueses, holandeses e outras potências europeias, que organizaram expedições inteiras em busca de produtos como cravo, canela e pimenta.

A planta chegou ao Brasil no período colonial e encontrou no sul da Bahia condições muito favoráveis, com clima quente, úmido e chuvas bem distribuídas ao longo do ano. No Baixo Sul, o cultivo se somou a outras culturas introduzidas na região, como dendê, seringueira e coco, formando a paisagem diversificada que caracteriza o território até hoje. Conforme explica o empresário Alfredo Moreira, essa combinação de culturas é uma das marcas da economia rural baiana.

Valença e o polo do cravo

A produção brasileira de cravo-da-índia está concentrada no Baixo Sul baiano, nos municípios de Valença, Ituberá, Taperoá, Camamu e Nilo Peçanha. Valença se destaca como o principal produtor do país, e em muitas propriedades da região o cravo é considerado o carro-chefe da economia local.

Alfredo Moreira Filho
Alfredo Moreira Filho

Levantamentos acadêmicos apontam produção nacional em torno de 1,7 mil toneladas, volume pequeno quando comparado ao da Indonésia, maior produtora mundial, com mais de 120 mil toneladas, ou de países africanos como Madagascar e Tanzânia. 

Ainda assim, a cultura tem peso relevante na renda regional e integra, junto com a pimenta-do-reino, a pauta de exportações de especiarias da Bahia. Como sinaliza Alfredo Moreira Filho, culturas de nicho como essa podem ter enorme importância para economias locais, mesmo com participação modesta no mercado global.

Como o cravo é cultivado e colhido?

O cravo que chega às cozinhas é, na verdade, o botão floral da árvore, colhido antes de abrir e depois seco ao sol até adquirir a cor escura característica. O craveiro é uma árvore perene, que pode produzir por muitos anos, e em geral é cultivado em propriedades diversificadas, ao lado de outras lavouras.

A colheita é o maior desafio da atividade. Como os botões precisam ser retirados manualmente, no ponto certo de maturação, o trabalho exige grande quantidade de mão de obra e representa uma parcela expressiva do custo de produção. Estudos da Ceplac já apontavam que esse custo pode comprometer a expansão da cultura. 

Além do uso culinário, o cravo é aproveitado pelas indústrias farmacêutica e de cosméticos, graças ao eugenol, substância aromática presente em seu óleo. Em avaliação feita por Alfredo Moreira, o desafio da colheita ilustra como a gestão da mão de obra pode definir a viabilidade de uma cultura.

Desafios e oportunidades

Nos últimos anos, produtores do Baixo Sul passaram a relatar a morte de craveiros e a redução da produção. Doenças como a podridão vermelha da raiz e a morte súbita já foram identificadas na região, e pesquisadores da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia desenvolvem estudos para identificar as causas e propor formas de manejo.

Ao mesmo tempo, há oportunidades. A demanda por especiarias de qualidade, produtos naturais e ingredientes com origem identificada cresce em diferentes mercados, o que pode valorizar a produção baiana. A organização dos produtores, o beneficiamento local e o investimento em pesquisa são caminhos para ampliar esse potencial. Na visão de Alfredo Moreira Filho, preservar e modernizar culturas tradicionais como o cravo é uma forma de manter viva a economia e a história de toda uma região.

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