Quando se observa o patrimônio rural de uma família, os advogados Rodrigo Gonçalves Pimentel e Sideni Soncini Pimentel descrevem o arrendamento rural com trava de preço como caminho para manter a terra na propriedade da família sem impor aos herdeiros a rotina da safra. A fazenda concentra riscos climáticos, de mercado e de gestão que raramente atraem sucessores com carreiras em outras áreas, e a insistência em operá-la diretamente pode converter um patrimônio valioso em fonte de desgaste para todos.
Somado a isso, o modelo tradicional de sucessão rural costuma dividir a terra entre vários herdeiros sem definir quem conduzirá a produção, o que fragiliza a operação e alimenta disputas. O arrendamento desloca o trabalho para um operador especializado, contratado por prazo determinado, enquanto a família preserva a titularidade da terra e passa a receber uma renda previsível. A lógica é simples, porém exige contrato bem construído, atenção ao perfil do arrendatário e definição clara de responsabilidades sobre a conservação do solo.
O que significa a trava de preço no arrendamento rural?
A trava de preço fixa parâmetros de remuneração ao longo do prazo contratado, protegendo a família contra a corrosão inflacionária e contra oscilações bruscas do mercado agrícola. Rodrigo Gonçalves Pimentel dimensiona o mecanismo como instrumento de previsibilidade de fluxo de caixa, já que a renda deixa de depender do resultado da safra e passa a seguir regras definidas em contrato. Com receita estável, os herdeiros conseguem planejar gastos, investimentos e compromissos familiares com horizonte de longo prazo.
Tendo em vista que o contrato de longa duração sustenta esse fluxo, a escolha do arrendatário pesa tanto quanto o valor pactuado. Operadores com histórico consistente, capacidade financeira e prática de manejo adequada reduzem o risco de inadimplência e de degradação da terra. Por outro lado, prazos muito curtos ou cláusulas de reajuste mal desenhadas fragilizam a segurança que o arrendamento se propõe a oferecer. A avaliação da idoneidade e da experiência do operador antecede qualquer assinatura, pois o contrato só protege a família quando a contraparte consegue cumpri-lo.
Terra arrendada ou operação própria, qual entrega mais ao herdeiro?
A comparação entre arrendar e operar diretamente passa por uma pergunta econômica básica, a de saber quanto o herdeiro recebe pelo capital investido e quanto risco assume para obter esse retorno. Como resultado, uma participação menor em um ativo que rende com segurança tende a superar o controle integral de uma operação sujeita a prejuízos recorrentes. No entendimento de Rodrigo Gonçalves Pimentel, a lógica pesa especialmente quando a família não conta com sucessor preparado para conduzir a produção.

Na operação própria, permanecem os custos de maquinário, mão de obra e insumos, além da exposição às variações climáticas e da necessidade de um gestor com dedicação integral. No arrendamento, esses encargos migram para o operador, e o proprietário passa a fiscalizar o cumprimento do contrato e a preservação da terra. No campo patrimonial, a fazenda segue integrada ao acervo da família e pode ser transmitida por meio de uma holding, sem que a sucessão exija a continuidade da atividade agrícola.
Quando a fazenda deve continuar operada pela família?
Rodrigo Gonçalves Pimentel e Sideni Soncini Pimentel contextualizam que o arrendamento não é regra universal, pois fazendas rentáveis, com herdeiros dispostos e preparados, podem seguir em operação familiar. O ponto de atenção está na governança, já que a atividade agrícola exige gestão profissional, metas claras e acompanhamento por um conselho, e não apenas a presença de um sobrenome à frente da porteira. Sem essa estrutura, o risco de decisões improvisadas cresce a cada ciclo de produção. A profissionalização da fazenda também facilita a entrada de sócios ou investidores, caso a família decida ampliar a área ou modernizar a produção.
A escolha entre operar e arrendar depende de um diagnóstico prévio dos ativos rurais, do perfil dos herdeiros e da rentabilidade real da atividade. Em muitas famílias, a solução combina os dois modelos, mantendo sob gestão profissional as áreas mais produtivas e arrendando as demais para gerar renda estável. A decisão parcial permite ajustar o patrimônio ao longo do tempo, sem forçar uma ruptura abrupta com a história agrícola da família. O que se busca é uma solução ajustada à realidade de cada propriedade, e não um modelo aplicado de forma automática.
Sobre os especialistas
Rodrigo Gonçalves Pimentel é advogado, empresário e sócio do Pimentel & Mochi Advogados Associados. Sua atuação envolve questões empresariais, patrimoniais, societárias e sucessórias relacionadas a empresários e famílias empresárias.
Sideni Soncini Pimentel é advogado, desembargador aposentado e integrante do Pimentel & Mochi Advogados Associados. Após uma trajetória de mais de quatro décadas na magistratura, iniciou uma nova fase profissional na advocacia, com atuação consultiva e estratégica.

