Ao abordar a prática da pesca esportiva, Joel Alves identifica uma contradição inerente a esse tipo de atividade: embora os peixes sejam devolvidos aos rios, muitos acabam morrendo em até alguns dias após o procedimento. Embora o conceito do pesque e solte tenha surgido como uma ferramenta de conservação, sua eficácia depende menos da intenção do pescado e mais do que acontece nos poucos minutos entre a fisgada e a soltura.
Estudos sobre mortalidade após a soltura apresentam resultados bastante variáveis, que vão de índices próximos de zero a perdas expressivas, conforme a espécie, a profundidade da captura, a temperatura da água e a forma de manuseio. A amplitude desta indicação é uma evidência da efetividade dessa técnica. Contudo, torna-se imprescindível o conhecimento e a prevenção de erros recorrentes, seja na escolha do equipamento, seja no seu manuseio dentro do barco.
Os efeitos da briga sobre o comportamento do peixe
A luta prolongada resulta em um esforço anaeróbico intenso, com acúmulo de ácido lático e desequilíbrio fisiológico. Em água quente, o quadro se agrava, pois há menos oxigênio dissolvido e o metabolismo do animal está acelerado. O uso de equipamentos leves para a espécie, empregados para estender o combate, aumenta o risco mesmo quando o peixe é solto imediatamente em seguida.
A exposição ao ar constitui outro fator crítico. Fora da água, as lamelas das brânquias colapsam e deixam de trocar oxigênio, e cada segundo dedicado à foto ou à medição se soma ao desgaste da briga. Como ressalta Joel Alves, é justamente nesse momento que a boa intenção mais se perde, visto que o registro do troféu costuma demandar mais tempo do que o pescador percebe.
Peixes de águas profundas enfrentam o barotrauma, que pode levar à descompressão e inchaço, impedindo-os de voltar ao fundo. A técnica específica de soltura, que inclui a descida assistida do peixe com equipamento apropriado, é essencial para reduzir perdas.

Anzol, manuseio e soltura: onde estão os erros
O tipo de anzol influencia diretamente a sobrevivência. Anzóis circulares tendem a fisgar no canto da boca, reduzindo os riscos de danos às brânquias e aos órgãos internos. Anzóis sem farpa ou com a farpa amassada facilitam a retirada. Garatéias múltiplas, presentes em iscas artificiais, são fundamentais para aumentar o tempo de desenganche, aspecto decisivo na seleção do equipamento, de acordo com Joel Alves.
No manuseio, o muco presente nas mucosas cutâneas é protegido pelo contato com as mãos molhadas, evitando a proliferação de fungos e bactérias. A remoção dessa camada protetora pode ser causada pelo contato com o piso do barco e redes de malha áspera, quando em uso. A prática de levantar exemplares grandes apenas pela mandíbula, na vertical, pode ocasionar lesões na musculatura e na coluna. Por conseguinte, recomenda-se apoiar o corpo do peixe na horizontal.
No momento de soltar o peixe, é essencial mantê-lo na água em posição natural, de frente para a correnteza, até que ele recupere o movimento próprio. Cabe ressaltar que Joel Alves chama atenção para o hábito de arremessar o peixe de volta ou movimentá-lo para frente e para trás, prática que pode forçar a água no sentido contrário das brânquias e atrasar a recuperação.
Quando soltar não é suficiente
Em algumas situações, o pesque e solte não evita o impacto. Na piracema, a modalidade é proibida em normas de diversas bacias porque o manuseio de reprodutores pode interromper a migração. Em dias de calor intenso e com perda de oxigênio na água, a segurança diminui e encurtar a pescaria se torna uma decisão de conservação.
No entendimento de Joel Alves, a técnica deve ser compreendida como um conjunto de procedimentos, e não meramente como o gesto final de abrir a mão. A seleção do anzol, o uso de equipamento adequado ao tamanho do peixe, a luta breve e a captura rápida são fundamentais para garantir a sobrevivência do animal antes mesmo de sua reintrodução à água.
Esse deslocamento modifica a questão que o pescador se faz. Em vez de questionar se o peixe foi solto, passa a importar em que condições ele retornou ao rio. É nesse aspecto que a prática do pesque e solte ultrapassa a condição de mera diretriz e se consolida como um procedimento que contribui efetivamente para a preservação dos estoques para as temporadas subsequentes.

