Um dado da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, ajuda a entender a preocupação da Sigma Educação, empresa especializada em aprendizagem, tecnologia e desenvolvimento educacional: pela primeira vez, os não leitores passaram a ser maioria no país, com 53% da população sem ter lido sequer parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa.
O número costuma ser lido como questão cultural. Há, porém, um aspecto mais técnico e menos discutido sobre o impacto da leitura no desenvolvimento humano e educacional. Ler um texto longo, do início ao fim, treina capacidades cognitivas que outras formas de leitura não mobilizam, e esse treino está se tornando raro justamente na idade em que ele mais importa.
O que o cérebro faz durante a leitura profunda
Ninguém nasce sabendo ler. Como elucida a Sigma Educação, diferentemente da fala, a leitura é uma invenção cultural recente, e o cérebro precisa adaptar circuitos originalmente dedicados a outras funções, como o reconhecimento visual de objetos, para decifrar letras e palavras.
Decifrar, no entanto, é só a primeira etapa. Quando o leitor acompanha um argumento ou uma narrativa por dezenas de páginas, ele passa a fazer inferências, relacionar informações distantes no texto, antecipar desfechos e se colocar no lugar de outra pessoa. A pesquisadora Maryanne Wolf chama esse conjunto de operações de leitura profunda. Como qualquer habilidade complexa, ela se fortalece com uso frequente e enfraquece quando deixa de ser exercitada.
Por que a tela muda o modo de ler
Pense em como se lê uma notícia no celular: título, primeiro parágrafo, uma rolagem rápida, talvez um trecho em destaque. Esse padrão de varredura é eficiente para localizar informação, e é exatamente o que o ambiente digital estimula.

O problema aparece quando esse modo se torna o único. Uma meta-análise publicada na revista Educational Research Review, que reuniu dezenas de estudos com mais de 170 mil participantes, encontrou vantagem da leitura no papel sobre a leitura em tela na compreensão de textos informativos, sobretudo quando havia limite de tempo. A diferença não está no suporte em si, mas no hábito de leitura apressada que a tela tende a induzir.
O que isso muda na sala de aula
Se a leitura profunda depende de prática, a escola precisa reservar tempo para ela. Isso significa momentos de leitura contínua em sala, com textos progressivamente mais longos, seguidos de conversas que exijam dos alunos inferência e argumentação, e não apenas localização de respostas. Poucos minutos diários de leitura silenciosa, sem interrupção, já criam uma rotina que muitos alunos não encontram em casa.
Não se trata de rejeitar a tecnologia. A tela funciona bem para pesquisa, consulta e produção colaborativa. Na avaliação da Sigma Educação e Tecnologia, o equilíbrio está em planejar deliberadamente os dois modos de leitura, combinando recursos digitais com obras lidas por inteiro e trabalhadas ao longo de semanas. Um aluno que alterna entre eles aprende quando varrer e quando mergulhar, uma decisão que nenhum algoritmo tomará por ele.
Ler até o fim como formação humana
Em última análise, entende-se que a leitura profunda não forma apenas melhores estudantes, mas também exercita a paciência diante do que é difícil, a capacidade de sustentar uma ideia complexa sem simplificá-la e a disposição de compreender perspectivas diferentes da própria. São qualidades que pesam na vida profissional, na convivência e na participação democrática.
Em um país em que a maioria já não lê livros, a escola talvez seja o último lugar em que muitas crianças terão contato sistemático com esse tipo de experiência. É por isso que, para a Sigma Educação, a leitura precisa ser tratada como eixo do desenvolvimento educacional, e não como atividade complementar: o que se aprende ao ler até o fim acompanha a pessoa muito depois da última página.

